quarta-feira, 27 de abril de 2011

Consolar os corações de Deus, Jesus e Maria

Aprofundando um pouco mais no que toca o tema reparação, quero reafirmar o sentido pelo qual o sofrimento tem sentido redentor na vida do homem. A reparação vem dar sentido ao sofrimento humano, mais do que isso, a reparação tem poder de aliviar a dor causada pelas ofensas com que Deus, Jesus e Maria são ofendidos.
No post anterior começamos a perceber que, os nossos sofrimentos sejam eles voluntários ou não, podem ser oferecidos a Deus em ato de reparação dos pecados que eu cometi, e que outros cometeram, mas acima de tudo, com a reta intenção de consolar os corações de Deus, de Jesus e Maria, transpassados pelos pecados da humanidade. É mais do que justo, que eu me sacrifique por aqueles que continuam a ofender estes três corações, não podemos ficar inerentes ao apelo de conversão e reparação feito aqui.
Portanto, reparar não é um castigo imposto a nós, muito menos uma questão de troca de favores, pois de graça recebi, de graça devo oferecer.
Jesus foi o primeiro a oferecer a Deus este consolo e o fez de forma gratuita, reparou nossos pecados que ofendiam o coração de Deus, “Cristo tomou sobre Si as nossas dores, Ele morreu para que tivéssemos o perdão.” (cf Is 53, 6). Estávamos condenados à morte como um boi destinado ao matadouro, mas Cristo assumiu a nossa culpa, pagando o preço com o seu próprio sangue a dívida que tínhamos com Deus, devido à desobediência dos nossos primeiros pais (cf. Rom 5, 7). Ele não nos pediu nada em troca, foi gratuitamente que ele dispôs-se abraçar a sua Cruz, que no fundo no fundo, era a nossa cruz, e como um cordeiro, Cristo foi imolado, sacrificado por toda a humanidade. Cristo só espera de nós que, creiamos Nele e sejamos Santos. “Esta é a vontade de Deus a nosso respeito, que sejamos Santos assim como Vosso Pai que está no Céu é Santo.” (cf. Rom 3, 21).
Esta Reparação está ao alcance de todos, aceitá-la, é ao mesmo tempo, corresponder ao amor gratuito de Deus por nós, e contribuir no plano de salvação de toda humanidade. É indenizar a Deus devolvendo a Ele amor roubado pelos pecadores, cujo qual eu sou o primeiro.
Fátima é um convite dos tempos atuais para reparar toda ofensa contra os corações de Jesus e Maria, consolar estes dois Sacratíssimos Corações transpassados pela espada do pecado, da maldade e da ingratidão. Reparação significa, portanto, devolver a Deus o que lhe pertence, que é se não a concretização da nossa Salvação.
Eis o motivo pelo qual sofremos, “é feliz o homem que suporta a provação e os sofrimentos, porque depois de provado e testado, receberá a coroa da vida eterna”. (Cf. Tiago 1, 12) Há uma recompensa para quem assim proceder. O sentido que damos aos nossos sofrimentos é que vai determinar o tipo de recompensa que haveremos de receber. Infelizmente a nossa tendência é estamos sempre nos desviando da vida eterna quando não aceitamos os nossos sofrimentos e a cruz de cada dia. Quando fugimos dos nossos sofrimentos estamos fugindo da nossa própria cruz a que Jesus nos disse que sem ela não é possível ser seu discípulo, pois esta atitude de repulsa contra tudo que nos faz sofrer é própria do demônio, é característica dele fugir da cruz, porém nós somos convidados a utilizar de todos os nossos sofrimentos para sermos santos, para nos tornarmos inabaláveis na fé e fortes na provação. Eis o segredo para se chegar ao céu, aqui está à escada da felicidade eterna.
Já podemos pedir a intercessão dos beatos Francisco e Jacinta Marto, beatificados no ano 2000 por João Paulo II, que voluntariamente escolheram subir pela escada do sofrimento, e que em breve também poderemos pedir a intercessão de João Paulo II que será beatificado no dia 1 de Maio. Que ao exemplo deles, Maria nos ajude a subir degrau por degrau até alcançarmos o Céu.
Maria, porta do Céu rogai por nós!
Marcelo Pereira

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ato de reparação

“Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias da Ir. Lúcia)
Dando seqüência a nossa reflexão a respeito da espiritualidade do sofrimento podemos começar por afirmar que a “reparação” e a “súplica” é o objetivo principal do pedido de Nossa Senhora em Fátima, porém não é a única finalidade pela qual devemos sofrer. Deus não se limitou a isso, até porque não permitiria a existência do sofrimento se dele não tirasse algo bom, e com esta capacidade Ele introduz aos nossos sofrimentos outros valores que o tornam ainda mais precioso.

No decorrer das aparições em Fátima, Maria vai meio que em conta-gotas revelando o objetivo de suas mensagens sendo que em Julho, na terceira aparição, depois da visão do inferno em que é mergulhado os Pastorinhos, Maria lhes revela um objetivo ainda mais necessário a alcançar através da oração e da reparação. “Para impedir a guerra, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados”. (Memórias da Ir. Lúcia)
A consagração da Rússia junto à devoção ao Imaculado Coração de Maria e a Reparação dos Cinco Primeiros Sábados vai ser a grande motivação dos Pastorinhos que se entregaram totalmente a esta finalidade. Sobre isso veremos mais a frente, porém é importante aqui entendermos primeiro o significado da palavra reparação.

No dicionário a palavra reparação significa ato ou efeito de reparar-se ou reparar algo. Repare que a palavra “reparar-se” está na primeira pessoa, portanto, a mim cabe está função de reparação que também se entende por restauração que é devolver ao outro o direito da sua integridade original que de alguma forma eu denegri. Repara ainda significa indenização ou ressarcimento de algo que eu roubei do outro. Todo pecado gera conseqüências tanto para mim quanto para o outro, e estas conseqüências muitas vezes arranca lascas nas pessoas que estão próximas de nós. Por exemplo, quando falamos mal de uma pessoa, roubamos o direito da sua boa imagem, por mais que ela tenha errado, não temos o direito de roubar a sua boa imagem porque esta pessoa não é totalmente má, e certamente o mau que ela acaba fazendo no fundo não corresponde ao bem que ela foi por finalidade de criação destinada a fazer. Então, devemos ter uma consciência mais ampla do ser humano para julgá-lo e condená-lo, pois podemos estar arrancado pedaços da pessoa que vai exigir de nós uma atitude reparadora, que é a indenização e o ressarcimento dos direitos do outro. Pecar tem um custo muito alto para nós, pois reparar, indenizar ou ressarcir uma pessoa pelo mau que eu tenha cometido contra ela na maioria das vezes é muito mais difícil do que a dificuldade de ter evitado o mau que fiz contra ela.
Agora veja, vamos trazer isso para a primeira pessoa, quanto ao nosso pecado, não é somente ao outro que atingimos com o mal cometido, atingimos ainda outra dimensão que poucos que poucas vezes temos nos importado. Trata-se de uma dimensão espiritual. Todo pecado de qualquer gênero ou de qualquer dimensão tem conseqüências diretas ao coração de Deus, pois todo pecado é uma ofensa à desobediência contra o amor de Deus, razão pela qual tudo e todos nós fomos criados.

Foi por amor que Deus nos criou e foi através do amor que Cristo reparou e expiou toda ofensa contra o coração do Pai no sacrifício da cruz. “Ele nos conheceu e amou na oferenda da sua vida” Cat 616 Na Cruz de Cristo, não só realizou-se a Redenção através dos sofrimentos, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido”.
Jesus foi o primeiro a fazer um ato de reparação, não pelo seu próprio pecado, pois Jesus não cometeu pecado sobre a terra, mas Ele sacrificou-se por nós, pelos nossos pecados, ressarciu a Deus por nós, pagou a divida que tínhamos perante Deus, e através do sacrifício da cruz reparou toda ofensa contra o coração de Deus.

No Catecismo da Igreja Católica diz assim: “A Reparação quer nos levar a uma plena saúde espiritual, é mais do que apenas confessar os nossos pecados, vai além do arrependimento, é concretamente um ato penitente após a confissão.” Por isso, é corretíssimo que o Padre indique uma penitência ao pecador, como forma de também reparar as conseqüências geradas pelo mal que cometerá, independente do grau que foi o pecado. Diz ainda o Catecismo: Muitos pecados prejudicam o próximo. É preciso fazer o possível para reparar este mal (por exemplo: restituir as coisas roubadas, restabelecer a reputação daquele que foi caluniado, compensar as ofensas e injúrias). A simples justiça exige isso, mas, além disso o pecado fere e enfraquece o próprio pecador, como também sua relação com Deus e com o próximo. Absolvição tira o pecado, mas não remedia todas as desordens que ele causou. Liberto do pecado o pecador deve ainda recobrar a plena saúde espiritual, deve, portanto fazer alguma coisa a mais para reparar os seus pecados.” (Cat. 1459).
Este foi o caso de Zaqueu, depois de ter recebido em sua casa o Senhor da Misericórdia, “Jesus de Nazaré”, arrependido dos seus pecados, Zaqueu, faz em poucos segundos, uma rápida contabilidade da sua vida errônea, e então diante do Senhor ele mesmo determina a sua reparação: “vou repartir a metade de meus bens aos pobres e darei o quádruplo àqueles que prejudiquei.” (cf. Lc 19, 1-10). “Toda falta cometida contra a justiça e a verdade impõe o dever de reparação, mesmo que o seu autor tenha sido perdoado”. Cat. 2487

Não basta o perdão e a absolvição ao confessar nossos pecados, é preciso do ato de reparação para ser plena a nossa conversão. Quero me aprofundar um pouco mais neste sentido, mas para o texto não ficar muito extenso, vamos fazer uma pausa aqui para ruminarmos durante esta semana o que acabamos de refletir sobre a reparação.
Que Deus te abençoe e desperte em você o mesmo amor que motivou a Jesus a oferecer a sua vida na cruz por amor a Deus, em reparação as ofensas com que Ele é ofendido.
Santa Maria rogai por nós!

Marcelo Pereira

Qual o sentido do sofrimento?

Estamos trilhando pela via da “Espiritualidade do Sofrimento”. Vimos no primeiro post através do documento de João Paulo II (O sentido cristão do sofrimento humano), que os nossos sofrimentos não são em vão, eles não acontecem por acaso do destino, há um sentido para este interminável sentimento que chamamos de “sofrimento”, mas tudo depende da maneira com que eu o encaro cada sofrimento que a cada dia bate em minha porta.

No segundo post refletimos sobre a espiritualidade de Fátima que traz em si uma significante resposta que também dá sentido ao sofrimento humano e que por meio dos três Pastorinhos de Fátima, ficou assim instituído como via de santidade.
Eu prometi que voltaria tocar neste assunto e que quero agora junto com você aprofundar um pouco mais nesta virtude escondida por de trás do sofrimento.

Na primeira aparição de Nossa Senhora em Fátima, ela pergunta aos Pastorinhos; “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias da Ir. Lúcia)
A palavra mais imponente aqui no pedido de Nossa Senhora é a palavra “sofrimento”, que já refletimos sobre a sua importância no post anterior. O segundo destaque vai para “pessoa”, para quem é destinado o pedido. Também já estudamos sobre isso um pouco atrás quando entendemos que o pedido se destina na primeira pessoa, ou seja “EU”.

O terceiro destaque neste pedido de Nossa Senhora vai para quem está fazendo o pedido. Nossa Senhora aqui é apenas uma mensageira, pois é Deus que a envia em missão sobre a terra para pedir por meio dos pequenos Pastorinhos que aceitem todos os sofrimento que Ele (Deus) quiser enviar-lhes.
Então veja bem, o pedido vem de Deus e o tipo de sofrimento também fica por conta D`Ele. Coube aos Pastorinhos apenas dizer que sim ou que não, ao que eles disseram “SIM QUEREMOS”. A partir daí, nasce no coração de Francisco, Jacinta e Lúcia o desejo de corresponder ao pedido de Deus de uma forma lucidamente concreta.
O quarto e último ponto significativo e que vai dar todo um sentido para esta reflexão sobre a espiritualidade do sofrimento é o para que devemos aceitar o sofrimento, a que ela responde; “em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”
Está é a finalidade pela qual devemos aceitar de boa vontade todo e qualquer sofrimento que bater em nossa porta, há uma forma de reciclarmos o sofrimento e transformá-lo em conteúdo de reparação pelos pecados com que Ele “JESUS” é ofendido e de suplica pela conversão dos pecadores. Aqui reside o sentido pelo qual sofremos.

O que acontece é que ficamos cegos diante da dor que o sofrimento nos causa que perdemos a visão espiritual e a mística que se esconde atrás da cortina do sofrimento.
Porém, nós enxergando ou não, esta mística existe, esta espiritualidade é real e que graças aos Pastorinhos de Fátima, este véu também já foi rasgado, não é mais obscuro perceber que caminhar sobre a cruz do sofrimento com esta consciência de reparação e de oferecimento, pode tornar leve nosso calvário, e menos doloroso também, além de poder utilizar aquilo que para nós é desprezível, no caso o “sofrimento”, em remédio de consolo para o Coração de Jesus muito ofendido por todos os pecados da humanidade.
Pode parecer um absurdo, mas é isso mesmo que você esta entendendo. Os nossos sofrimentos podem ser útil para Deus. Pode servir de remédio e de consolo ao Nosso Senhor Jesus Cristo, basta apenas oferecermos a Deus, canalizarmos para isso.

No próximo post quero lhes apresentar as duas vias com que os Pastorinhos intitularam como espiritualidade do sofrimento e que por meio delas chegaram ao Céu.
O importante hoje é perceber que Deus estende este pedido também a nós; “Quereis também vós oferecer-vos a Mim, para suportar todos os sofrimentos que Eu quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que meu Filho é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”

A resposta é pessoal, e temos que responder apenas que sim ou que não. É certo que a nossa resposta será de acordo com a nossa intimidade com Deus, sem olhar para a Cruz de Cristo, e sem o despojamento de um coração pobre e humilde, de fato será difícil enxergar qualquer sentido em nossos sofrimentos. Mas estou certo que Maria também vai nos ajudar a retirar as escamas do mundo material, da prepotência, do nosso orgulho, do nosso pecado que nos cegam os olhos da fé, e com teu auxilio ó mãe, poderemos também nós alcançar o Céu por termos escolhido fazer a vontade de Deus mesmo que se essa vontade seja abraçar a nossa própria cruz.

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós
Marcelo Pereira

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

“Sofrimento” e a espiritualidade de Fátima

Como eu disse no último post sobre este tema, que eu gostaria de me aprofundar neste tema da “Espiritualidade do sofrimento”, e hoje quero focar nossa reflexão sob o ponto de vista da espiritualidade de Fátima.

No ano de 1917, Maria aparece aos três Pastorinhos e lhes faz este convite: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias da Ir. Lúcia)

Observe que se trata de uma pergunta de Nossa Senhora, a que os Pastorinhos responderam que “Sim, queremos!” Desde então, as três crianças começaram a trilhar por um caminho de sofrimento, que os acompanharam até o fim da vida.

Então veja, neste pedido de Nossa Senhora, o “sofrimento” aparece como objeto principal da oferta a Deus. Deus poderia ter pedido outras coisas, mas Ele escolheu pedir-nos o sofrimento. E por quê? Certamente, penso eu, pelo fato do sofrimento ser algo que todo mundo tem, então todos poderiam ofertar a Deus, já que o sofrimento faz parte do nosso cotidiano, em qualquer gênero e em qualquer época da nossa vida.

O “sim” dos Pastorinhos não foi uma resposta inconsciente, mesmo sabendo que eram três crianças pobres e analfabetas, desprovidas de qualquer conhecimento intelectual ou espiritual, mas a respeito do pedido de Nossa Senhora, eles entenderam exatamente do que se tratava. Com o decorrer do tempo vamos percebendo isso nas atitudes dos Pastorinhos, eles demonstraram na prática que a oferta que eles ofereciam a Deus, correspondia exatamente ao sim que eles haviam dado segundo os desígnios que foram se revelando no decorrer da história. Acredito que somente em um coração pobre e simples como o foi dos Pastorinhos, que seja possível corresponder a uma missão tão grande.

Vamos visualizar melhor o testemunho dos Pastorinhos nos próximos posts, mas é importante ressaltar já agora, que os Pastorinhos de Fátima desenvolveram dois meios de oferecer a Deus seus sofrimentos que vamos chamar de “duas vias de sofrimentos”, mas com virtude de santidade.

A primeira via são os sofrimentos que eu ofereço a Deus, através das práticas de piedade, “sacrifícios e penitências”. E a segunda via, são os sofrimentos que Deus nos envia como um mistério de dor, porém com resultado de graças. Sobre isso veremos mais adiante, porém o mais importante aqui é perceber que os Pastorinhos assumiram uma forma de espiritualidade a partir do sofrimento e que esta espiritualidade tem virtudes de santidade, ou seja, é uma via que pode nos levar para o Céu.

Este é um ponto importante que precisa ficar claro nesta reflexão. Mas há um outro ponto que me chama muito a atenção no pedido de Nossa Senhora, é que ela direciona o seu pedido na primeira pessoa. “Quereis oferecer-vos a Deus…”. Trata-se de oferecer a si próprios a Deus, não é apenas o sofrimento por sofrimento, Deus pede a oferta de nossa própria vida que muitas vezes também é um grande sofrimento. E para dar-nos aos outros, muitas vezes precisamos morrer para nós mesmos, para nossas vontades, para nossos sonhos, por causa de um sonho ou de uma causa maior.

Vejo um segredo muito particular nesta oferta pessoal, pois muitas vezes sofremos por situações que não diz respeito a nossa própria pessoa. Por exemplo; podemos estar sofrendo por alguém que está muito doente e sente muita dor, e o nosso sofrimento aqui consiste no fato de sofrermos por ver a dor e o sofrimento do outro, principalmente se este alguém é muito próximo, íntimo ou da família, quanto mais íntimo, maior pode ser o nosso sofrimento. Bem, este tipo de oferta poderia não nos custar tanto quanto se tal enfermidade estivesse em nosso corpo. Aqui neste caso, oferecer a Deus a nós próprios vai muito além do tipo de sofrimento que nos aflige, e é aí que reside o segredo da oferta. Não conseguimos oferecer a Deus algo se antes não tivermos dado a Ele nossa vida primeiro, principalmente quando damos algo abstrato como é o sofrimento. Não se trata de uma oferta material com por exemplo, ofertar dinheiro, carro, jóias etc… Se trata de ofertar a própria vida, pois ninguém ofertária carro, dinheiro , casa etc, sem antes já o ter se ofertado a Deus. Este é o primeiro passo para conseguirmos oferecer a Deus nossos sofrimentos. Sem esta oferta e este abandono da nossa vida nas mãos de Deus, seria como que ofertar a Deus de mãos vazias.

Quero voltar neste assunto no próximo artigo, mas por hoje vamos ficar com estes dois pontos.

Primeiro entender que os Pastorinhos assumiram os seus sofrimento como forma de espiritualidade, por isso insisto no tema “espiritualidade do sofrimento”.

E o segundo ponto que acabamos de refletir, consiste em oferecer a Deus a nós próprios como princípio de toda oferta a Deus. Através dela adquirimos confiança de oferecer todas as outras coisas a Deus, seja por iniciativa própria, ou por iniciativa de Deus.

Peço a Virgem Santíssima que continue nos conduzindo ao verdadeiro sentido do sofrimento humano, e que a espiritualidade do sofrimento possa chegar ao nosso entendimento de forma que também nós possamos por meio dela alcançar a santidade.

Com carinho Marcelo Pereira

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Espiritualidade do sofrimento


Pode se parecer estranho dizer isso, mas pode acreditar, por detrás do sofrimento se esconde uma graça particular, uma força sobrenatural capaz de transformar o próprio sofrimento em bens espirituais.

Mas como assim? Que tipo de benefício pode trazer o sofrimento? Bem, me deixa explica.

João Paulo II foi um dos Papas que teve seu pontificado como um dos mais marcados pelo sofrimento, pois, após ter sobrevivido a três tiros no peito na Praça de São Pedro no dia 13 de Maio de 1981, o sofrimento passou a ser o cálice diário de João Paulo II que o acompanhou até na hora da morte। E foi exatamente pelo fato de João Paulo II ter entendido na própria carne o sentido do sofrimento, que o próprio Espírito Santo o conduziu a compôs a próprio punho, um documento cujo tema é “O sentido cristão do sofrimento humano”.
Então, a partir da leitura deste documento, podemos afirmar que o "sofrimento” trás em si cruz e ressurreição”.
“No sofrimento se esconde uma força particular que aproxima interiormente o homem de Cristo, uma graça particular” (O sentido cristão do sofrimento humano)
Veja, pode até parecer um certo masoquismo afirmar isso, mas uma coisa é certa, depois da cruz de Cristo, nenhum sofrimento tornou-se insuportável. Cristo alcançou o ápice do sofrimento, e alcançou por nós, “o Redentor sofreu no lugar do homem e em favor do homem”, (O sentido cristão do sofrimento humano) Ele tomou sobre Si as nossas dores, “homem de dores, familiarizado com o sofrimento (...) desprezado, brutalizado, ele se humilhou, não abre a boca: como um cordeiro é arrastado ao matadouro (...) Na verdade são os nossos sofrimentos que ele carregou”. (Isaías 53,3-7)
A chave que abre o entendimento no que diz respeito ao sofrimento humano, é justamente o que vem depois da cruz. “Na Cruz de Cristo, não só realizou-se a Redenção através dos sofrimentos, mas também o próprio sofrimento humano foi redimido”. A redenção já está garantida para aqueles que aceitarem passarem pela cruz. E atenção para palavra “aceitar”. Aceitar aqui não significa acomodar-se ou conformar-se com o sofrimento. Significa especialmente, entender que só em Cristo nossos sofrimentos tem sentido redentor, fora D’Ele, nenhum sofrimento pode ter beneficio. São João da Cruz, também apostolo da cruz de Cristo dizia, que “quem aceita o sofrimento por amor e com amor a Cristo, torna sua cruz mais leve”.
Por isso eu começo esta reflexão afirmando que o sofrimento é uma forma de espiritualidade, pois todo o sofrimento humano, seja ele qual for, precisa ser entendido sob a perspectiva de Jesus crucificado। A partir daí nossa cruz pode se tornar mais leve।
Está é também a espiritualidade de Fátima. Pelo sofrimento Deus revelou aos três Pastorinhos, uma via de salvação que transforma a dor do homem ferido em remédio a própria alma.
Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias da Ir। Lúcia)


Sobre a resposta dos Pastorinhos a está pergunta de Nossa Senhora em Fátima, quero deixar para refletir num próximo post, mas quero terminar esta reflexão afirmando que, aquilo que é para nós um peso, uma cruz sem sentido ou um sofrimento desnecessário, pode ser redirecionado a uma via de espiritualidade que poucos conseguem enxergar principalmente ao calor da dor que o sofrimento trás, mas que existe e está accessível a todos, ou seja, apesar de ser uma graça particular como exprimiu João Paulo II em seu documento citado a pouco, é acima de tudo uma graça necessária a todos nós, por tanto o convite que Deus nos faz aqui, é um convite a intimidade com Cristo sofredor, o Cristo da Cruz, o mesmo que ressuscitou.
É um caminho que precisamos trilhar, é acima de tudo uma resposta que precisamos dar, pois foi Jesus que disse: “Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” Mac 8,34

Que Maria a mãe das dores, nos ajude a tirar as escamas que o próprio sofrimento colocou sobre nossos olhos da fé, que tem nos impedido de enxergar ou dar sentido aos nossos sofrimentos nos conduza a uma espiritualidade capaz de dar sentido aos nossos sofrimentos.

Com carinho Marcelo Pereira

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Temperança, quarta virtude Cardinais

A temperança é a virtude da medida certa, que modela a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Para adquiri-la é necessário que eu reconheça a minha medida e os meus limites, devo reconhecer do que sou capaz e quais sãos as minhas habilidades.

Para isso é preciso ir até o limite da nossa capacidade. É certo que hora ela poderá passar da medida e até extrapolar, e hora ela poderá ficar apenas na superfície e nem se quer provar do sabor da medida certa, tudo depende do domínio que a temos sobre a nossa vontade e o impulso do nosso instinto.

A temperança é como uma bússola que harmoniza e mantém os nossos desejos dentro dos limites da honestidade.

Em grego, tal virtude significa sensatez que ordena (phrosyne). Já os espanhóis a chamam de“temperare”, e que lembra “tempero no ponto certo”, que significa ordenar de modo adequado, unir, refrear, resguardar-se.

Jesus na cerimônia do “lava-pés” nos ensina a medida certa no servir; “se, pois eu o Senhor e Mestre vos lavaram os pés, vós devereis também vos lavar os pés uns dos outros”. João 13,14

E quando se trata de amar, a medida certa é o próprio Jesus; “Como eu vos amei, vos também, amai-vos uns aos outros”. João 13,34

Paulo também se aplica viver de modo ordenado refreando as paixões e buscando o seu equilíbrio na medida do Espírito Santo. Para ele é o Espírito Santo que dá ao homem o equilíbrio necessário para viver sem excesso e sem desmedida.

Quem não vive de acordo com a sua medida, adoece, se stressa e vive sobrecarregado de tensões e amargor. Ao mesmo tempo, buscar a medida certa nos disciplina do comodismo, do medo, da falta de audácia de arriscar diante de um desafio e das situações difíceis do nosso dia a dia.

Ultrapassar a medida não é o ponto certo, mas já é um bom começo, pois é sinal que passei por ela “pela medida certa”, agora é retornar e trabalhar para se estabilizar nela. É melhor do que ficar estancado no ponto de partida. Daí é que vem a temperança, pois de tanto tentar acertar vamos criando tempera até adquirir um equilíbrio estável. Só assim vou saber do que sou capaz e quais são os limites das minhas próprias medidas.

O objetivo desta virtude é trazer serenidade para a nossa alma, equilíbrio interno, é estar em harmonia comigo mesmo.

Maria foi adquirindo equilíbrio na medida em que ela ia se lançando nos braços de Deus, nos desígnios de Deus. Para ela, a sua medida era o próprio Deus, o que conta e faz a diferença é à medida que Deus escolheu para nós.

A cada um de nós há uma medida certa escolhida por Deus, mas nós podemos olhar para Maria que é a“Forma Dei”, que, segundo São Luís Grignion de Montfort, Maria tem em si a forma certa pela qual Deus que é a medida certa foi gerado. Podemos usar Maria como medida para descobrirmos a nossa própria medida.

Lembre-se, que um caminho de mudança pessoal exige conhecer a nossa própria história e as nossas tendências, a fim de desfrutarmos das nossas capacidades sem exceder os nossos limites. A temperança pode nos ajudar aprimorar este caminho. Aproveite!

Deus abençoe você!

Com carinho Marcelo Pereira

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Prudência, segunda virtude Cardinais

No artigo anterior vimos a JUSTIÇA como a primeira virtude cardinal. Hoje vamos entender qual é a virtude que se assemelha a inteligência do coração.
A PRUDÊNCIA é uma maneira prática que através da razão é capaz de discernir em qualquer circunstância nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo. Cat 1806
São Tomás de Aquino associa a prudência com a palavra providência. Já em alemão a palavra prudente “KLUG” significa fino, delicado, gracioso, culto, desenvolto, corajoso e efusivo.

Ser prudente também é ser inteligente. São Tomas de Aquino dizia que a prudência sempre pressupõe o reconhecimento do bem. Excede o simples saber e encontra-se sempre ligada a ação. Não é uma questão de saber ou de ter conhecimento aguçado, mas é uma inteligência que apura e reconhece a realidade de forma correta, para, a partir deste princípio saber como agir. A prudência é o modo necessário para que a nossa vida tenha êxito. O próprio S. Tomás cita Aristóteles onde ele acreditava que a prudência constitui a condição prévia para todas as virtudes, como que guia das virtudes, “uma regra e a medida certa da ação”.
É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência, ordenando a conduta do homem segundo este juízo com a finalidade de praticar o bem e evitar o mal.
Quem é prudente consegue enxergar além da situação atual e avaliar-se uma determinada ação, realmente a prudência constitui um caminho para realizarmos um determinado objetivo.
Jesus tece elogios ao homem prudente que construiu a casa sobre a rocha. Elogia até a prudência de um administrador infiel e injusto. Faz um paralelo entre as virgens tolas e as prudentes. Jesus usa a prudência como medida para quem pretende se dedicar a um empreendimento. Em fim, a prudência é a atitude que torna o homem inteligente e faz sua vida ter êxito.
A pessoa prudente não pensa apenas com o intelecto, e sim com o coração. Quem a ela descobre, descobre também o caminho para o sucesso de ter uma vida plena de realizações boas.
A próxima virtude que vamos estudar será a FORTALEZA.

Deus abençoe você!

Com carinho Marcelo Pereira

Justiça, primeira virtude Cardeal

A primeira virtude que vamos tocar é a justiça. Platão afirmava que a justiça é a virtude daquele que estabeleceu o equilíbrio entre o espírito (mous), honra pessoal (thymos) e desejo (epithynia) que imprime assim uma característica da alma.
O Catecismo da Igreja Católica define a justiça como a virtude que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que Lhe é devido.
São Duas referências. Ser justo para com Deus e ser justo para com o próximo. Um não pode ser menos que a outra, pois as duas andam juntas. A virtude está na pessoa, seja com Deus ou com o próximo a atitude é a mesma. Uma pessoa justa é aquela que faz jus ao seu próprio ser.
Na idade Média, a justiça sempre foi representada por uma mulher segurando uma balança e uma espada na mão. Seus olhos se encontram vedados, para que nenhuma inverdade lhe a cegue, mas ao contrário, toma suas decisões sem olhar para a pessoa. Considera tanto o assunto como também o ser humano com todas as suas particularidades.
Um exemplo típico que define uma pessoa justa é a do Rei Salomão em I Reis 3,16-22 que se vê como juiz entre duas mães que brigavam pela maternidade de um filho onde as duas diziam ser a mãe da criança. O Rei Salomão usou de muita sabedoria e julgou com justiça ao intuir o que era correto fazer naquele momento. Salomão levou em consideração não apenas a pessoa, mas também o assunto e agiu com clareza e de forma certa para descobrir a verdadeira mãe.
A justiça ajuda-nos a desmascarar a tendência do pecado original nos devolvendo ao estado de santidade e de justiça original. Cat 375
Sem justiça não há harmonia entre a alma e o corpo, entre o homem e a mulher, entre a criação e o Criador.
Aqui no Brasil se fala muito em justiça, justamente por que aqui a corrupção é que predomina as muitas classes sociais e políticas. O homem tem sede e fome de justiça, mas deve ele saber que a justiça não é dada e nem comprada, ela é uma característica da alma, uma marca original impressa pelo Criador no caráter de cada pessoa, como uma bússola que guia a suas ações, como fonte clara que fertiliza tudo o que ela realiza.
Maria é uma mulher extremamente justa. Embora ela não levasse o mesmo título de seu esposo S. José, como homem justo, mas Maria demonstrou tanto quanto ele que sua alma tinha essa característica sim, mas que vinha pela sua Imaculada Conceição, sem a mancha do pecado original, sem o risco de perder sua santidade e sua justiça original.
Só isso já faria de Maria uma mulher completamente justa, mas ela foi além, sem usar de nenhum pretexto sobrenatural, ela agiu de forma justa diante de Deus, mas sobre tudo diante dos homens.
Maria é para nós um modelo seguro de justiça, ela é Imaculada e se manteve em estado de justiça original durante toda a sua vida.
Peçamos a ela que nos ensine a viver justamente, a fim de que também nós alcancemos a santidade original. Que assim seja!

A próxima virtude será a “prudência”, fique atento...

Marcelo Pereira

Fortaleza, terceira virtude Cardinais

A virtude da fortaleza é conhecida também como a virtude da “coragem” que em alemão se lê “Tapfer”, que significa; firmeza, pesado, militante, audaz, efusivo.

A fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem, e pode nos tornar capazes de vencer todo o medo, inclusivo o medo da morte. Cat 1808

A pessoa corajosa é aquela que assume a si mesma e que persegui de modo conseqüente aquilo que reconhecemos como certo. Quem é corajoso não muda de opinião em função dos seus conflitos. Quem é corajoso não se deixa derrubar facilmente, ele está enraizado e transmite estabilidade.

Eu gosto muito de uma definição que Dom Serafim, Bispo Emérito do Santuário de Fátima em Portugal, que por muitas vezes eu o escutei ele explicar o significado da palavra coragem.

Segundo ele, a palavra “coragem”, vem da junção das duas palavras; (coração+agir) que unidas significa coração que age, ou agir com o coração. Eu achei lindo e profundo esta explicação e nunca mais esqueci, pois não se trata apenas de uma coragem externa, superficial, mas representa uma coragem que vem de dentro do coração e que é capaz de enfrentar qualquer medo ou desafio.

A pessoa corajosa dispõe de uma fortaleza comparada a de um grande exercito. Quem era Davi diante daquele enorme Golias, ele era apenas uma criança, mas dispunha de uma coragem equivalente a de um guerreiro e assim ele venceu o terrível Golias pela sua audácia.

Audácia tem a ver com o saber e sabedoria. A pessoa corajosa não entra simplesmente em uma briga, primeiramente, ela torna-se ciente e sábia naquele momento, refletindo quais são de fato as suas condições, os seus limites, e só então decide avançar na luta munida de uma coragem que não está pautada na força física e nem mesmo nas armas, mas sim da força interior, a força do coração.

A pessoa sabia não é guiada por princípios abstratos e superficiais, e sim pelo seu coração.

Coragem também tem a ver com “resistir”, e daí vinha à motivação do Bispo de Fátima, pois sempre que ele nos via desesperados ou desmotivados diante dos grandes desafios que vivemos por lá nos inícios da missão Canção Nova em Portugal, Dom Serafim vinha como um pai nos recordar a virtude da coragem dizendo; “tenham coragem”, muito similar a uma frase bem conhecida do nosso querido fundador Monsenhor Jonas Abib, que por muitas vezes nos chacoalhava em suas pregações nos dizendo; “tenham coragem meus filhos!”.

Diante da dor e dos sofrimentos da vida, podemos agir com coragem. Diante das tribulações e da morte podemos dizer, “coragem”, pois “no mundo teremos tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” João 16,33

Lembre-se que a fortaleza ou a coragem, é uma virtude que recebemos de Deus como graça e fonte de força para a nossa alma, mas é também uma atitude que conquistamos a medida que trabalhamos na construção da imagem que Deus escolheu para nós.

No próximo artigo vamos estudar a virtude da medida certa, que é a “temperança”.

Deus abençoe você

Com carinho Marcelo Pereira